Um homem precisa viajar

"Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos e simplesmente ir ver”.

(Amyr Klink)

Pijama, Chinelo e Televisão!

Todo mundo - ou quase todo mundo, para não cair no erro generalizando - acha que a vida daqueles que optaram por fazer sua vida em outro país é regada de glamour, luxo e coisas excitantes 24 horas por dia, 7 dias na semana. Sim, eu viajo. Sim, eu viajo bastante! Mas não é porque eu moro na Europa que tudo é muito mais fácil e muito mais barato. E não é porque eu moro na Europa que meu dinheiro nasce em árvore! Eu também levanto cedo, pego ônibus e metrô, aguento gente fedida, trabalho o dia inteiro! Eu também chego em casa e tenho que fazer janta, colocar a roupa para lavar, arrumar a cama que passou o dia desfeita por causa da pressa da manhã!

Muitas vezes eu me espanto com as coisas que escuto. A grande maioria das pessoas acha que aqueles que moram fora 'deram sorte'. Quase ninguém vê o que tivemos que deixar para trás, as escolhas que tivemos que fazer, as batalhas travadas internamente, as diferenças de cultura, a mudança permanente de cenário, para podermos viver o que estamos vivendo hoje. Eu conheço muita gente - não somente brasileiros, mas muita gente de outros países que largou tudo para construir a vida em outro lugar, milhares de quilômetros de distância de casa, que atravessou um oceano para recomeçar, e nem por isso vive em um mar de rosas ou faz valer a pena!

Eu já passei por muitos cantos, já vivi muitas histórias, já vi muitas coisas, e sei que ainda não vi metade daquilo que eu gostaria ou deveria, mas uma coisa eu aprendi: os seres humanos, apesar das diferenças de cultura, apesar das particularidades, são no fundo muito parecidos, porque certos sentimentos são universais. Certamente você já ouviu muitos de seus amigos ou conhecidos dizendo: 'quando eu terminar a faculdade vou fazer a viagem dos meus sonhos', 'quando eu mudar de emprego...', 'quando eu ganhar um pouco melhor...', 'quando eu criar coragem de deixar meu namorado/marido/amante/companheiro...', 'quando ele voltar para mim...', 'quando eu emagrecer...', e por ai vai. E assim passam os dias, os meses, os anos, uma vida. E a rotina toma conta, e o medo cria raízes, e a aceitação ganha espaço num cantinho da alma, e aquela inquietação, aquela vontade de mudar, aquele desejo de arriscar, vai ficando cada vez mais soterrado, e nos tornamos espectadores de nossas próprias vidas, nos contentando com as histórias dos outros, ao invés de abrirmos a porta de casa e irmos viver as milhares de experiências que sempre desejamos!

A vida está ai para ser vivida, cada um a sua maneira, mas o que não pode acontecer é você deixar ela passar bem na frente do seu nariz sem vivê-la na sua intensidade! O novo está sempre batendo a nossa porta; novos sabores, novos aromas, novas formas de arte, novas melodias, novas tonalidades de cores que já conhecemos, novos sentimentos, novas formas de explorar o que achamos que já conhecemos tão bem! Porque é aquela velha história: até uma Ferrari na garagem vira Fusca! Não é?!